Ex-mendigo quer realizar o sonho de estudar em Hollywood
Lages, 29/03/2011, Correio Lageano por Thomas Michel
Com um sobrenome que justifica a persistência,
Marcelo Brasil viajou cinco dias de
bicicleta de Blumenau até Rio do Sul para pegar um ônibus que chegasse a Lages. A longa
jornada foi feita com um objetivo simples: fazer um
passaporte.
Quem acha que foi preciso muito esforço para o documento não sabe que é só uma pequena parte de um grande objetivo: estudar na melhor escola de atores do mundo, a New York Film Academy, em
Hollywood.
Marcelo, de 32 anos, já passou há muito tempo da adolescência. Tem quatro filhos para criar, é casado, já trabalhou em supermercado e viveu uma das experiências-limite mais pesadas que um ser humano pode passar: após a morte da sua mãe, quando ele tinha 15 anos, morou por dez meses nas ruas da capital gaúcha.
A saída das ruas aconteceu quando um tio o levou para morar em Blumenau, onde trabalhou no comércio e apaixonou-se pela sétima arte.
“Sou cinéfilo, já vi filmes de todos os tipos: coreanos, alemães, afegãos, etc”. Na sua última profissão, em um supermercado, decidiu seu futuro: ser ator. “Desde pequeno eu já imitava o Jaspion e outros personagens da minha infância e depois pensei: já que não vou ficar rico, vou fazer o que gosto”.
Um curso de um ano e meio no teatro Carlos Gomes, algumas atuações no currículo e o mais impressionante: duas peças escritas e um filme.
Como em toda obra, o artista retrata um pouco de seus anseios e experiências, no caso da peça “O Dedo Preto”, o tema é a vida de um mendigo.
O filme “O repolho para todos”, que fez parte do festival catavídeo, é um daqueles clássicos filmes de baixo orçamento. A capa é sensacional: a hortaliça, verde e redonda, como veio ao mundo, adornada apenas por um óculos escuro.
Muito mais que um repolho, hoje o DVD do filme amador de
Marcelo Brasil representa seu sustento: “saio nas ruas, praças e em várias cidades fazendo minhas performances e vendendo o filme.
A venda é difícil, Marcelo conta que muita gente não dá dinheiro porque não acredita que ele realmente quer ir para
Hollywood. “A maioria pensa que vou gastar com pinga, é duro entender que uma pessoa quer realizar um sonho assim”. A média de vendas é baixa, “a cada 30 pessoas, uma compra”, conta o artista.
O impossível
Sustentar uma família de seis pessoas viajando e vendendo
DVDs a vinte reais parece difícil. Marcelo consegue ir além e ainda junta dinheiro para estudar em
Hollywood: “para economizar eu faço só uma refeição por dia, cheguei a emagrecer oito quilos desde janeiro de 2010, quando comecei o projeto”.
“Todo mundo fala que eu sou louco, que isso é impossível”, conta Marcelo. “Minha mãe adotiva falou que eu consigo, mas somente se eu tiver a ajuda de Deus e ganhar na mega-sena”.
A experiência nas ruas de Porto Alegre rendeu um trauma da cidade que, segundo ele, “ainda não desce pela garganta”. O lado positivo é que a atual empreitada fica mais fácil “pra quem já foi mendigo, o que passo hoje é lucro”, explica Marcelo.
A ideia surgiu da fascinação pela atuação. Marcelo conta que procurou escolas de artes cênicas no Brasil, mas estudar em qualquer uma delas era muito difícil. Decidiu então procurar no Google pela melhor instituição de ensino para atores do mundo. “Já que no meu país era quase impossível, decidi que iria tentar extrapolar a realidade e tentar o inalcançável”.